A edição de janeiro da Revista Nature publicou artigo sobre mudanças nos ciclos de energia e água na bacia amazônica que apontam para uma transição na função da floresta de reservatório de carbono líquido para uma fonte de emissão, em função das alterações climáticas globais e do desmatamento da floresta.
Um dos autores, o pesquisador Alessandro Carioca de Araújo, da Embrapa Amazônia Oriental, explica que o trabalho é uma compilação de informações geradas no âmbito do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA), uma das maiores experiências científicas do mundo na área ambiental (mais de 200 instituições nacionais e internacionais participantes), ao longo de mais de dez anos de estudos.
O artigo, que teve repercussão internacional, mostra que a expansão agrícola e a variabilidade do clima tornaram-se importantes agentes de perturbação na bacia amazônica. Mesmo com a resistência natural da floresta amazônica às secas moderadas anuais, os estudos indicam que as interações entre o fogo - decorrente do uso tradicional da terra (agricultura de derruba e queima) - e as mudanças climáticas globais levam a perdas de armazenamento de carbono e mudanças nos padrões de precipitação regional (chuvas) e aumento da descarga dos rios.
O cientista americano Michael Keller também assina o artigo da Nature. Pesquisador do Serviço Florestal Americano, ele atua na Embrapa Monitoramento por Satélite (Campinas/SP) desde 2011, como visitante. Formado em geologia e com grande conhecimento no uso do sensoriamento remoto voltado para ecossistemas florestais, Keller foi durante dez anos o coordenador, por parte da Nasa, do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA).
Segundo ele, a maior contribuição do programa, coordenado pelo Brasil, foi justamente possibilitar uma visão integrada das questões relacionadas à Amazônia, oferecendo análises científicas multidisciplinares. “Foi possível avaliar não só aspectos isolados, como por exemplo a agricultura, mas tomamos uma visão integral do sistema analisando as mudanças do uso e cobertura da terra, as variações climáticas e o sistema humano”, explica. Para Keller, os resultados publicados na Nature indicam possíveis ameaças. “São sinais que, do ponto de vista científico, chama a atenção para a manutenção das iniciativas em pesquisa para a região”.
Consequências
O pesquisador Alessandro Araújo explica que se trata de uma transição do sistema biofísico (seres vivos e ambiente) amazônico decorrente das interações entre o clima global, uso da terra, fogo, hidrologia, ecologia e dimensões humanas. “Por exemplo, embora o balanço de carbono da bacia ainda seja incerto, o desflorestamento mudou o balanço de um possível sumidouro (reservatório) na parte final do século 20 para uma fonte emissora de gás carbônico para a atmosfera”, exemplifica.
Além do indicativo de mudança no ciclo do carbono, o artigo aponta ainda como consequências imediatas dessa transformação, o aumento da estação seca em partes da Amazônia, a probabilidade de inundações a partir do aumento da descarga dos rios na estação chuvosa, e a perda da capacidade da floresta de retornar ao seu equilíbrio natural (resiliência), levando assim a um aumento nas taxas de mortalidade de algumas espécies de plantas.
O artigo sinaliza situações preocupantes, mas não impossíveis de serem evitadas. O pesquisador Alessandro Araújo reflete sobre investimentos contínuos na melhoria das capacidades científica, tecnológica e humanas que favoreçam a concepção de um modelo que atenda às necessidades de se produzir na Amazônia com sustentabilidade ambiental, social e econômica. “Ainda não há um modelo pronto em nenhum País com floresta tropical, mas as pesquisas avançam nesse sentido, testando diversos modelos de Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, ambos em estudos na Embrapa”, conclui o pesquisador.



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