Reduzir o desmatamento na Amazônia pode se revelar uma vitória apenas aparente contra o aquecimento global, sugere um novo estudo. Mesmo nos anos em que a mata virgem é preservada, queimadas para preparar lavouras podem anular a redução na emissão de gás carbônico.
O novo trabalho calculou o impacto do uso do fogo não só para o desmate, mas também para limpar o terreno de uso agrícola em áreas já desmatadas, as quais podem estar ocupadas com floresta secundária, o rebrote da mata.
"Não há um monitoramento exato de quanto as queimadas produzem [em gases-estufa], só dados pontuais", conta um dos autores do estudo, o brasileiro Luiz Aragão, da Universidade de Exeter (Reino Unido).
"O que se sabe é que o desmatamento libera anualmente cerca de 0,2 bilhão de toneladas de carbono. Em anos de seca forte na Amazônia, o fogo levaria à produção de algo entre 0,1 bilhão e 0,2 bilhão de toneladas de carbono", afirma Aragão.
O PIOR DOS MUNDOS
Contudo, a tendência atual, diretamente ligada ao aquecimento global, é o aumento da secura na região amazônica, explica ele.
No pior cenário, portanto, o fogo pode contrabalançar boa parte do que se conseguiu em redução de emissões pela diminuição do desmate, afirma o novo estudo, publicado na revista "Science".
Junto com Yosio Shimabukuro, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Aragão analisou as imagens de satélite que registram a área desmatada e a incidência de fogo na Amazônia Legal entre 1998 e 2007.
Embora esse período tenha representado uma tendência de queda na área desmatada na Amazônia - de 18.226 km2 para 11.532 km2 entre 2000 e 2007, segundo o Inpe-, a ocorrência de fogo aumentou em 59% da Amazônia Legal. Em 31% da região, o fogo segue a redução do desmatamento, e não seu aumento (esse segundo caso é visto em 13% da área).
Isso acontece, em parte, porque fragmentos de mata que sobram após a derrubada ficam descaracterizados, secos e mais inflamáveis.
Esse problema pode ser combatido com a mudança de práticas de agricultura extensiva a limpeza da lavoura com máquinas. Isso, no início, pode até aumentar as emissões. Após certo limiar, no entanto, o manejo intensivo é capaz de cortar em quase 70% a ocorrência de fogo.
Texto de Reinaldo José Lopes, divulgado no jornal Folha de São Paulo (www.folha.com.br)



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